A televisão brasileira parece ter encontrado uma nova fórmula para tratar temas complexos: transformar influenciadores em “especialistas”. A bola da vez é Felipe Bressanim Pereira, conhecido como Felca, que agora ganhou espaço no Fantástico para abordar saúde mental — um tema sério, delicado e que exige responsabilidade.
O problema não está exatamente em sua história pessoal. Felca já falou abertamente sobre depressão, ansiedade social e dificuldades emocionais, além de buscar tratamento psiquiátrico. Mas é justamente aí que começa o ponto crítico: desde quando vivência individual virou credencial para orientar milhões de pessoas? A Globo parece apostar na identificação emocional como substituta de formação técnica.
O quadro apresentado pelo influenciador mistura relatos, encenações e explicações sobre transtornos como ansiedade, com a proposta de “popularizar” o tema. Na prática, isso pode até ampliar o alcance da discussão, mas também abre espaço para simplificações perigosas. Saúde mental não é conteúdo de entretenimento, nem roteiro de storytelling televisivo.
Felca ficou conhecido por vídeos críticos e até relevantes, como a denúncia sobre exploração infantil nas redes, que teve impacto político e social. Mas isso não o transforma automaticamente em referência na área clínica. Há uma diferença clara entre influenciar debates e orientar pessoas vulneráveis.
Ao colocar um influenciador com histórico de sofrimento psicológico como rosto de um quadro sobre saúde mental, a emissora flerta com uma narrativa questionável: a de que sentir na pele basta para explicar, diagnosticar ou aconselhar. É uma romantização sutil — e potencialmente perigosa — do sofrimento.
Fonte: Connecct









