A Secretaria da Mulher de Barueri promoveu, no dia 6 de maio, a palestra “Os lugares da mulher na sociedade: entre direitos e realidades”, ministrada pela ativista indígena Jennyffer Bransfor, conhecida por sua identidade étnica como Bekoy Tupinambá. O encontro integrou as comemorações do Dia Nacional e Municipal da Mulher, celebrado em 30 de abril, e reuniu discussões sobre violência de gênero, abuso infantil, invisibilização de mulheres indígenas e educação sexual.
Natural do povo Tupinambá de Olivença, no sul da Bahia, Jennyffer Bransfor, de 42 anos, compartilhou parte de sua trajetória pessoal marcada por episódios de violência e abuso sexual sofridos desde a infância. Empresária e mãe de três filhas, ela atua hoje no combate ao abuso infantil por meio do ciberativismo e é fundadora de uma agência voltada a causas sociais.
Antes do início da palestra, Bekoy conduziu o Porancy, ritual de permissão tradicional do povo Tupinambá de Olivença. Durante a cerimônia, utilizou cânticos adaptados para homenagear as mulheres indígenas e destacar o protagonismo feminino em sua comunidade. “Quem levantou a base de reconhecimento do meu povo foram as mulheres. O meu povo é matriarcal”, afirmou.
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Ao abordar aspectos da cultura indígena, a ativista também apresentou imagens do manto sagrado Tupinambá, repatriado ao Brasil em 2024 após reconhecimento como patrimônio intelectual do povo Tupinambá de Olivença. O artefato permanecia anteriormente em um museu na Dinamarca. “Quando a gente fala de ancestralidade indígena, a gente fala da retomada do território e do reconhecimento de um povo”, declarou.
Durante sua fala, Jennyffer destacou o silenciamento ainda existente em torno da violência sexual, especialmente dentro do ambiente familiar. Segundo ela, o abuso atravessa diferentes culturas, classes sociais e estruturas de poder. “Na minha família, as únicas mulheres que não sofreram abuso sexual foram as minhas filhas”, relatou.
A ativista também afirmou ter sido vítima de exploração sexual na adolescência e disse que, entre os abusadores, havia pessoas em posições de autoridade. “O abusador não é um monstro e geralmente está dentro de casa. Pode ser um delegado, um promotor, um juiz, pastor, policial ou qualquer pessoa acima de qualquer suspeita”, afirmou.
Números que impressionam
Ao longo da palestra, Jennyffer apresentou dados sobre violência contra mulheres indígenas. Segundo levantamento da plataforma Gênero e Número, com base em registros do Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), os casos de violência contra mulheres indígenas cresceram 258% entre 2014 e 2023. “Historicamente, o corpo da mulher indígena sofre um apagamento. Em 10 anos houve aumento de 258% de estupros contra mulheres indígenas, sendo que 50% das vítimas eram crianças menores de 13 anos”, disse.
A palestrante também relacionou a baixa presença de mulheres indígenas nas estatísticas oficiais à invisibilização histórica e à dificuldade de acesso aos mecanismos de denúncia.
Educação como arma de defesa
Outro tema abordado foi a importância da educação sexual na prevenção de abusos. Para Bekoy, orientar crianças e adolescentes sobre o próprio corpo e limites pessoais é fundamental para identificar situações de violência. “Para as crianças, é muito importante ensinar o nome correto das partes íntimas e, para os adolescentes, explicar o que é uma vida sexual saudável”, afirmou.
“O silêncio só protege o abusador”
Ao falar sobre as consequências psicológicas da violência sexual infantil, Jennyffer destacou que o abuso pode comprometer a sensação de segurança, confiança e proteção das vítimas, além de gerar impactos emocionais duradouros.
Encerrando a palestra, a ativista reforçou a importância da denúncia e do enfrentamento ao silêncio em torno do tema. “Muita gente não gosta de tocar no assunto abuso sexual infantil porque envolve família, e esse silêncio só protege o abusador”, concluiu.
Da redação
Crédito das fotos: Divulgação/Secretaria da Mulher de Barueri










